10/08/2016

Primavera



   Ela tinha um jeito especial de segurar a caneca fumegante, enquanto assoprava o líquido antes de beber. Seus olhos encontraram com os meus no meio do processo.
   Desviei o olhar rapidamente, tentando evitar um engasgo e fingindo interesse pela paisagem do lado de fora do Café. Estranho eu ter que fingir interesse pela paisagem ao redor, estando em Paris. Principalmente pela falta de interesse ser causada por uma pessoa que eu vi apenas três vezes. Ou seriam quatro?
   Na verdade, infinitas vezes se considerar a quantidade de vezes que eu me pegava observando-a. Após algum tempo, disfarçadamente levei meu olhar novamente até a figura no outro lado do local. Ela tinha um sorriso contido no rosto, enquanto olhava para a revista em suas mãos. Seu cabelo caía de forma descontraída sobre os ombros. Imaginei se eu também conseguia passar a sensação de calmaria que ela exalava por todos os poros.
   Após um tempo tentando pensar no que fazer após sair dali, decidi apenas pagar a conta e ir.
   Estranho o modo como, quando você decide espairecer a mente, os pensamentos te assolam de forma absurda. Vir à Paris foi como uma fuga. Pensei: "Por que não ir para um lugar diferente para me acalmar, após ter o coração estraçalhado pela pessoa que eu acreditava ser a certa, e se provou ser totalmente errada?"
   Quero dizer, viajar é o melhor remédio. Ver outras pessoas, outros lugares, outro céu. Eu só não considerei o fato de que viajar para um dos lugares mais românticos do mundo não fosse contribuir muito. De qualquer forma, as manhãs valiam a pena, já que eu costumava ir sempre ao mesmo Café e sempre tinha a mesma visão daquela menina. Sempre no mesmo local, aparentemente bebendo a mesma bebida.
   Sorri automaticamente eu lembrar-me da troca de olhares e do sorriso contido dela. Essas situações me divertiam. De certa forma, ajudavam a reconstruir tudo o que estava quebrado aqui dentro. Era reconfortante.
   Após andar um pouco pela cidade, resolvi voltar por um caminho diferente. Passei por um parque que estava cheio àquela hora. Por ser primavera, tudo parecia mais colorido. Os jardins eram incríveis e a atmosfera do lugar passava uma tranquilidade incrível.  Ao passar pela orla do lago, a avistei.
   Estava sentada em um banco, debaixo de uma árvore. Continuava com a mesma revista em mãos e me perguntei o que tinha de tão interessante naquelas páginas. Pensei em ir falar com ela, dei um passo e desisti. Suspirei. Desviei o olhar. Passarinhos voando sobre as árvores. Olhei em sua direção novamente.
   Ela me olhava. Sorriu levemente. Voltou a ler a revista.
   Dei um passo após o outro.
   Quando vi, estava sentado ao seu lado olhando para o lago. Ela fechou a revista e a colocou sobre seu colo, observando o mesmo cenário que eu.
   Eu não sabia bem o que falar. Dizer "oi" parecia simples demais. Ela parecia ser tão intensa para esse tipo de coisa. E "oi" era algo tão simples.
- É a minha estação preferida.
   Eu a olhei, surpreso. Ela puxou a conversa. Me senti aliviado e apenas assenti.
- Acho que também gosto dela. - respondi. - Traz esperança.
- E um sentimento bom de renovação. - ela sorriu, me olhando com aqueles grandes olhos castanhos. - As árvores passam o ano inteiro ressecadas pelo sol, tendo suas folhas sendo levadas pelo inverno e ressecadas no outono...
- ... e aí chega a primavera e elas florescem. - completei sua frase.
   Ela estendeu sua mão para mim, a revista sendo totalmente deixada de lado. Falou seu nome baixinho, como se só eu pudesse ouvir. Sorri. Apertei sua mão, sentindo todos os pedaços se juntarem novamente.
   Ela me olhou com um sorriso tranquilo e eu sustentei seu olhar. Talvez renovação fosse a palavra-chave de tudo.

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